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Amanda Kuradomi
Herói do cinema
 

Beatles, Tarcísio Meira, David Beckham, Gisele Bündchen, Roberto Carlos. Eles são famosos, a tradução do que se convencionou chamar de sucesso. Têm visibilidade, status e muito dinheiro. Um espelho para milhões de pessoas. Quanta gente vive hoje em busca dos 15 minutos de fama, do sonho de ser celebridade. Mas será que sucesso é só ser famoso? É estar no foco das luzes e dos holofotes? É receber aplausos?

São muitas as definições de sucesso, e diferentes para cada pessoa. Não é preciso estar em cima de um palco para receber o reconhecimento pelo trabalho, para se realizar na vida e na profissão. O palco é para poucos. A platéia é para todos: para gente comum, pessoas anônimas, que também são personagens de histórias de sucesso.

 

No início de tudo, a escolha da profissão – uma decisão importante que angustia milhões de jovens.

"Eu sempre aconselho à pessoa optar pelo que gosta, pelo que dá prazer, pelo que brilha o olho", diz a psicóloga organizacional Vera Susana Moreira.

"Eu não me vejo fazendo outra coisa. Eu largo família, largo tudo para estar nas estradas", conta o projecionista José Carlos da Silva.

Antes das 6h da manhã, cada trem que chega já despeja uma multidão de trabalhadores na Estação da Luz, em São Paulo. Um dos vagões traz José Carlos, um pernambucano que vive na região metropolitana. Ele já percorreu mais de 100 mil quilômetros para ir atrás do sonho dele. O Globo Repórter seguiu em uma dessas viagens, rumo a Sumaré, no interior paulista. "Saí de casa às 5h10 e tomei o trem às 5h30. Foi só o começo, porque a viagem continua", diz.

O emprego de José Carlos, que não demorou a virar Zé, não tem endereço fixo. Para chegar lá, só pegando a estrada. Cada semana, uma cidade diferente. Zé Carlos é um homem do cinema. Viajar para o interior foi o jeito que ele encontrou para se manter na profissão, que, nas grandes cidades, praticamente não existe mais.

Mais alguns quilômetros rodados, e ele chega ao terreno vazio onde a equipe vai fixar acampamento por uma semana. São missionários da cultura. Para levar filmes brasileiros a cidades como Sumaré, só mesmo construindo um cinema! O pessoal da força entra em ação. Mas a turma de Zé Carlos não fica parada.

"A gente acaba fazendo de tudo um pouco. Eu ajudo a montar e, ao mesmo tempo, aperto um parafuso", conta o produtor Edson.

Edgar é eletricista. Tiago da Silva, filho de Zé Carlos, e o motorista Gladson Soares Rodrigues também não ficam na platéia. "É bastante cansativo, mas vale a pena", garante Tiago.

E não é que Zé Carlos rouba a cena? Construir o cinema é tarefa para um dia inteiro. O sol se vai, e a lua chega. Às 22h, um bairro da periferia da cidade já tem cinema. Zé Carlos pode começar a se dedicar a sua paixão.

 
Foi amor à primeira vista. Quando entrou pela primeira vez num cinema, no interior de Pernambuco, Zé Carlos se encantou com as imagens na tela grande. Ele tinha 12 anos, e tudo parecia mágica. Foi quando ele decidiu o que queria fazer da vida, onde queria estar. E não era na tela. Ele queria ficar escondido, atrás de uma janelinha. Zé Carlos queria outro papel: ser o homem que projeta a magia do cinema.

"Eu sempre olhava para trás, de onde saía a projeção. Aquilo me encantou. De manhã, eu varria o cinema. À tarde, ia para a escola. À noite eu retornava para a cabine, onde eu trabalhava como ajudante. Aqui é meu santuário", conta Zé Carlos.

A própria história de Zé Carlos parece filme. Aos 13 anos, na cidade de Barreiros, em Pernambuco, ele teve a grande chance de estrear na profissão, graças a um deslize do projecionista.

"Ele costumava passar na casa da namorada antes de exibir o filme e, num belo dia, se atrasou. O dono do cinema perguntou se eu tinha condições. Primeiro, veio aquele pavor. Liguei a máquina, abri o foco e, quando joguei na tela, falei: 'Não acredito que consegui!'. Acho que eu fui muito abençoado por Deus", diz Zé Carlos. ”Para mim, o dia-a-dia- é uma batalha. Em cada cidade que eu vou, sinto como se estivesse plantando uma árvore. Espero que elas cresçam e dêem frutos”.

Chegando a hora da sessão, a fila cresce, junto com a expectativa e a curiosidade. Nem a imaginação de criança parece decifrar o que a sala escura esconde.

"Nunca teve cinema assim aqui, só circo e parque", conta Diego Malta da Silva, de 9 anos.

Paloma Felipe Macedo, de 10 anos, não imaginava como é um cinema. A matinê não é só para a garotada. É para vovó também. Foi o neto quem levou a agricultora Josefa da Silva. E ele nem se deu conta da importância do convite. "Eu assistia pela televisão. Mas, pessoalmente, esse foi meu primeiro filme", revela.

Gladosn se reconhece nas expressões de Paloma, no sorriso de dona Josefa. O motorista do caminhão que leva o projeto Brasil afora entrou num cinema pela primeira vez quando foi trabalhar com Zé Carlos. Uma emoção guardada em segredo, só revelado no dia da visita da equipe do Globo Repórter.

"Eu fiquei sabendo hoje. Quando ele contou, me arrepiei", diz Zé Carlos.

"Só de ver os olhinhos das pessoas brilhando, eu me sinto ali junto com eles novamente. Emociona demais", diz Gladson.

"O que me importa é poder estar aqui dentro, com a sala lotada e a sessão rolando. Isso é gratificante para mim. Eu me sinto como se fosse o ator principal do filme", diz Zé Carlos.

Um herói? Um homem que ainda acredita na profissão. "Ela está com os dias contados, acho que já se encerrou. As grandes empresas não contratam mais um projecionista. Mas eu não desisto, porque não me vejo fazendo outra coisa", comenta Zé Carlos.

"Zé Carlos refez essa profissão. Ou seja, ele refez o jeito de fazer o trabalho dele, mesmo que isso signifique alguns ônus, como viajar num projeto itinerante. Mas ele consegue exercer aquilo que sonhou. Às vezes, nosso sonho precisa sofrer releituras, modificações, para podermos acompanhar o mundo e as mudanças que ele impõe aos nossos processos. Mais do que paixão, é a certeza de si próprio em relação àquilo que faz. E ele, provavelmente, está pensando em como resolver isso daqui para frente, porque não terminou. A carreira nunca termina, apenas quando morremos", avalia Vera Susana Moreira.

"Eu não espero mais futuro disso aqui, porque acho que meu futuro está sendo hoje", constata Zé Carlos. É por isso que ele pega a estrada toda semana. Não há distância para quem segue a verdadeira vocação. Aonde tiver platéia, ele vai.

O menino Diego diz que, enquanto o projeto estiver na cidade, vai assistir às sessões. "Minha prima não queria vir, mas eu arrastei ela. E vou arrastar de novo."

"Tanta coisa diferente que eu nunca tinha visto pessoalmente... Gostei mesmo! Tudo naquela telona grande, muito lindo. Quando eu chegar ao meu lugar, já tenho muito o que contar", diz dona Josefa.

"Vou sentir saudades, mas um dia ele volta", finaliza Diego.